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todos perdem o encantamento quando se distraem contigo

todos perdem o encantamento quando se distraem contigo

Conheço um farol

 

Naquele dia de grande entusiasmo e frequente desespero, entendi que era ainda muito mais que silêncio esquecido. Se tinha antes sido um mero passo cambaleante, ainda continuava a sê-lo e cada vez mais tarde veloz, mais tardio na caminhada e ciente de nada. Sempre fui parte incompleta de uma orquestra sem amor, em que os dias são apenas uma migalha inadiável de distrações alheias. Conheço um farol distante, donde emergem sempre as mesmas plantas viscosas e molhadas, algas intrínsecas capazes de estranheza mundana. A tristeza nunca foi inimiga do mar bravo e da maresia das palavras. Pintei esse farol de uma varanda marcada pelo tempo e pelo sal. Na escrita de outrora ainda persistia qualquer coisa de belo e de ingénuo, que jamais poderia regressar, porque daquela antiga inocência lânguida nasceu a vaidade do verdadeiro amor, que hoje sucumbe ao desvaneio. Este tinha sido o meu dom. O dom da tristeza e do passado errante, que nunca tive, mas que pensei. Não havia mais cascatas berrantes, nem discos sonantes de cenários capazes de preencher momentaneamente felicidade. Em cada momento esmoreci, quase sem nada para oferecer ao prazer. Na reciprocidade nunca encontrei qualquer vírgula de encantamento. Sempre me cruzei com ilusões esbatidas pelo tempo e amei-as por saber que não durariam. Conheço um farol queimado pelo mar, em Bretanha, onde quis morar, como que por remanescência de nunca ter realmente vivido aqui. No balanço do estanque, nada pode fazer mais sentido que a própria queda. Os dias passam e as algas ficam mais rígidas e estampadas na pedra. Assim é-o comigo.

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Quem sou eu?

Sou apenas uma migalha aqui deixada, que folheia momentos na diagonal. Sou uma sombra incadescente , moribunda e danificada pelo tempo. Sou pasmo ternurento bloqueado nas palavras, que tendem a se distanciar. Sou parte da sonoplastia artificial de cada momento. Sou levado por passos apressados, ainda ao encontro da imagem singular. Não sei que imagem é essa, apenas ainda gosto de a procurar, num jogo por modificar. 
 

 

Silêncio ensurdecedor

 A Manuela era uma pessoa dorida da razão que levara nas costas. E era desse peso que queria se livrar. Do peso da vida. A vida também ela isenta de qualquer coisa de irreverente. Um dia percebeu que tinha ganho muito pouco com ela e decidiu descobrir quem era, para além daquela coisa que ela própria não sabia descrever. Quem era ela? Uma pessoa sem maldade e ingénua. Ela própria não sabia se o era de facto. Se calhar até tinha medo de perceber o que temia ser. Fechava os olhos e suspirava pausadamente. Ouvia com atenção todos os pormenores do dia. Estava confusa e desligou a televisão durante uns meses. Quem era ela? Esta pergunta surgia frequentemente na sua mente. Para onde teria de ir para o descobrir? Foi então que pensou em fazer um retiro espiritual, apesar de não se sentir inteiramente preparada para o fazer. Apanhou um avião e dirigiu-se para o tal local..

 

O retiro situava-se num local sossegado e arejado, de um silêncio capaz de fazer o maior ruído dentro daquela cabeça. Era um teste de paciência ridiculamente complicado para uma principiante na meditação.  A aragem daquele local, pareceu-lhe como que sapiente de qualquer coisa inexplicável e por breves instantes, só conseguiu pensar no silêncio ensurdecedor do seu pensamento.   Era o ruído da sua alma. Os seus fracassos e a sua loucura. Um não grito de fuga, paira ali, ali mesmo. Quem seriam os outros? Quem seria ela ainda?

 

Uma séria vontade de descobrir abriu caminho onde tudo começou.

Conto contigo

Conto contigo, como pessoa capaz de sobrevoar cidades desconhecidas

 

Em ricos espasmos de dores não sentidas

 

Por telhados laranjas emudecidos

 

Conto contigo, como asas caídas

 

Do teu céu verde meditativo

 

Capaz de apaziguar qualquer ente desconhecido.

 

Nunca conto só comigo

 

Porque estive sempre dentro do meu estado contemplativo.

Antónia

Havia naquela cidade a cair aos bocados, uma rapariga enigmática. Ela tinha um gato preto e branco, uma mala cheia de porcaria e gostava de ler. Ela estava com pressa e tropeçou numa garrafa vazia e caiu. Estava chuva e vento e ela não tinha guarda-chuva. Antes ela estava numa consulta de dermatologia. Tinha muitos sinais estranhos à volta do pescoço. Ela estava a pensar no sentido da sua vida.

Ela se chamava Antónia. A sua vida tinha sido marcada por amores impossíveis, olhares cruzados e curiosidade. A sua maior iniciativa foi comprar um quadro preto e branco. Ela tinha um sonho por cumprir, o sonho de ir a um retiro espiritual e sair de lá ilesa. Por muito triste que se sentisse, encontrava sempre uma forma de sorrir.

Tinha um trabalho, mas não tinha uma carreira. Tinha um olhar próximo e ao mesmo tempo distante. Não tinha nada a não ser o desejo de poder vir a ter. Cumpria os seus deveres e direitos cívicos e quando tinha algum tempo disponível, escrutinava o sentido de respirar ar puro fulminante como se de uma bebedeira se tratasse. Em tenra idade, costumava passear em desnorte e quando esbarrava numa pedra perdia, levava-a para casa. Aninhava animais ferozes e capazes de come-la num ápice. De mãos frágeis e tez pálida, a sua pele regenerava pouco e qualquer cicatriz ficava à vista para sempre. Tinha um olhar automático para ver pássaros e folhas caídas. Na sua infância, pescava com o pai grandes peixes e acendia altas fogueiras. Saltava muito e imaginava de como seria se voasse. Nunca percebeu o sentido de viver num universo sem fim.

Num dia de cansaço e com rinite alérgica aguda, decidiu mergulhar no mar e não mais voltar.

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Último dia do ano

Mais um ano que passou a correr. Alegrias e tristezas. Sentimentos e novos rumos. E as saudades da inocência e das cores.

Quando era criança, este era sem dúvida um dos meus dias favoritos do ano, senão mesmo o favorito. Acordar e ter um dia repleto de sonoridades explosivas, com amigos a correr, com sorrisos leves e descontraídos. Passava rápido, mas as sensações envolventes do dia, pareciam durar mais do que uma semana. Nasci numa ilha em que o fogo de artifício arregalava os olhos de qualquer um. O dia em que havia rua cheia e não estava calor, nem frio. Havia canja de galinha e comentários sobre as possíveis saídas nocturnas para a noite. Das discotecas às notas do primeiro período. Era o último reencontro familiar desse ano e o primeiro do próximo. Os desejos eramsempre quase os mesmos em doze passas mal contandas e mal comidas, o brilho nos olhos e a vontade de crescer o mais rapidamente possível.  E o que me chateiava ter que desejar bom ano a toda àquela gente, enquanto ainda estava a dar o tal fogo de artifício. Hoje desejaria depois, sem qualquer tipo de arrependimento. 

O caçador de tempestades

O que mais se altera na atmosfera terrestre é a pressão e a temperatura, capazes de desencadear as mais belas tempestades.

O meu nome é Carlos Pança Mole e fui dependente em tempestades.

Quando era criança costumava subir o telhado da casa dos meus pais para ver aquelas enormes nuvens carregadas de água, ficava admirando o seu movimento e sonhava ser um caçador de tempestades.

De noite, a claridade provocada pelos relâmpagos dentro do meu quarto, era como um festim de alegria. Uma festa que surgia quando menos esperava e que me proporcionava um espetáculo noturno cheio de adrenalina. Desejava viver para as tempestades.

Quando chovia nunca usava guarda-chuva, adorava sentir a chuva e desejava que esta me afogasse. Queria tempestades diárias, mas isso era impossível. No sítio onde morava elas apareciam muito pouco.

Todos os dias pesquisava por tempestades, das mais históricas às menos históricas. Eu só tinha uma certeza, queria vivê-las e senti-las, mesmo que isso significasse arriscar a própria vida.

Durante aqueles anos, fui atrás de ventos e trovões, muito raramente vi neve e os tornados só mesmo em filmes. O meu conhecimento de tempestades era então muito rudimentar e incompleto. Sentia que precisava de uma maior vivência e não via a hora de sair dali a ir ao encontro de um sítio repleto de tempestades.

Quando fiz 18 anos decidi que era o momento certo para emigrar para um país idóneo a verdadeiras tempestades. Foi então que escolhi viver algures na América Central. Nunca me sentia só. Éramos vários a ver nas tempestades o seu valor estético e artístico.

Sempre quis morrer sufocado pelo vento ou arrastado por um enorme tsunami. A força bruta da natureza sempre me impressionou ao ponto de querer ser desfeito por essa mesma força.

Em 1985, quando tinha 33 anos, fui ao encontro da imagem singular e perfeita de uma tempestade e nunca mais regressei.

Foi o dia mais feliz da minha vida.

 

Aniversário

Não acredito que amanhã faço anos! Isto não pode ser!Um ano mais velho! Que seja mais um ano, mais dois e por aí fora.

Confesso que odeio fazer anos, aquela coisa toda à volta do aniversário coloca-me com stress. " Muitos parabéns" , " felicidades", e as frases e palavras que se dizem deixam-me a representar o " muito obrigado", " lembraste-te", na verdade o que queria de facto dizer era " deixem-me em paz", "só apetece-me dormir". Serei a única a pessoa a odiar fazer anos? Quero acreditar que não.

Delírios e croquetes

Era domingo. Estávamos no final daquela manhã conhecida como a pior de todas dos últimos quatro anos. Na verdade pior do que o nosso mais terrível momento, pior do que não conseguir respirar. São as mentiras capazes de asfixiar o retorno do afecto e da felicidade momentânea, das palavras e do conforto. Nessa manhã lembrada pelo horror do encontro com o ébano envolto em espasmos curtos e dilacerantes, experimentei-te nu. Sabia de mim, mas não de ti. Raios de sol solene já não trilhavam mais o meu caminho conspurcado de barreiras sombrias e desconfortavelmente nítidas. Agosto sempre percou pelo calor matinal que se prolonga devagarinho até ao outro dia. Mas nessa manhã não tomei o pequeno almoço, nem lavei os dentes. Deixei-me da fama singular, das carícias e de tudo o que antes me fazia sorrir. Nada mais poderia retirar-me do fundo do poço a não ser uma nova manhã, repleta de palavras doentes capazes de fazer-me sobrevoar por cidades, parágrafos e pontos de exclamação.

Seis anos

Passaram seis anos desde do surgimento do  presente blog, nele tentei escrever sobre todas as tolices que me passaram pela cabeça, muitas delas hoje privadas, sem acesso público. Nestes seis anos cresci. Mal era. Diria mesmo que mudei muito. De jovem idílico capaz se sobrevoar as mais absurdas ideias,  para alguém que esqueceu-se quem era. Porque tornei-me naquilo que os outros querem que seja e eu próprio faço por corresponder a essas mesmas expectativas. As minhas capacidades predisponentes ainda existem, todavia as precipitantes evaporam-se na eminência do quotidiano intersubjectivo que nos intrelança em vícios e manhas. Portanto, digo, com toda a certeza, que já não sou quem era. Talvez ainda permaneça , aliás permanecerá sempre, as reminiscências, não apenas duas, mas dúzias delas. Hoje falta-me um ócio romantizado da vida , motor de dinâmica itinerante, emergente daqueles todos espasmos literários de quem nada teme. Isto sou eu hoje. Sem esperança.

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