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todos perdem o encantamento quando se distraem contigo

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Vamos Morrer

 

   Patenteia-me repentinamente aflição cosmopolita mortífera – esclarece-me a generalização fugaz da vida -, hoje, aqui, sentado nesta noite amena, com um gato preto e branco no colo: remeto-me para a verdade imutável - isenta de suposições conformistas -, o eco censurável pelo ouvinte, eu próprio! ( Há tantas palavras). Sentir-te-ias sensivelmente sentimental, se de certo, sentido tivesse a tua existência?
Ontem, talvez ainda hoje, mas sobretudo neste instante, a morte segrega labilidade instruída, densa e forte, apoteótica na sentença que consciencializa-me.
   Eu, também tu, presumo, ou conjecturo, por mera hipótese personalizada dos diversos Homens que nunca pisaram a lua e sentiram o deslumbramento da vida rotativa em que se inserem, que desejavas ter vivido nos anos trinta, passeando na praia e pensando nos vinte e dois anos mais felizes da tua vida, ou afirmar-se controvérsia no século dois depois de cristo, independentemente da época, sonhamos ser intemporais, apologistas ou não de uma religião, pessimistas por natureza, ou ainda por obsessão, opressores da negação, todos beberiam a poção saudável da vida, possibilidade essa de imortalizarem-se na saúde frisada de um infinito amor vitalício. Quantas lágrimas um dia derramar-se-ão, mesmo que invisíveis, no momento da tua estagnação? E tu, nem havias saboreado aquele gelado de morango no dia dois de Agosto de mil novecentos e dois, e aquando vivo, não participaras no debate a favor do direito de voto daquelas mulheres, morrerdes no ápice absurdo (Meu Deus), sem aprenderes a escrever com a mão direita. Diriam:
-         Como foi possível.
Alguém visaria:
-         É a vida!
    E aquele lugar? Jamais teria o calor do teu corpo impregnado. Mesmo assim, risos contemplavam-no de vida, tu esquecido no vácuo em que tudo tornar-se-á.
    No hospital, o éter prolifera o odor mórbido daquelas salas desinfectadas todos os dias, a anestesia camufla o grito da dor, o guincho das macas pronunciam sofrimento ao fundo do corredor, a chapa revela que a nicotina tornara-o vício da morte, batas brancas reanimam o que lhes é já banal , suspiros de alívio pelas análises interpretadas, indiferença pela satisfação dos resultados, do outro lado, choros pelo diagnóstico e consolos para o irremediável.
    Eu estive em Paris, Lisboa, Timor, Roma, Viena, Nova Iorque, Bruxelas, Tóquio, Kiev, Oslo, Rio de Janeiro, Berna, Moscovo e Campo de Ourique. Estive? Poderia estar.
    É só um abafo na plenitude da efemeridade existencial: neste dia, nesta noite, eu escrevo, João Gouveia, terça-feira, vinte e sete de Fevereiro de dois mil de sete. 
    Eu ainda escrevo.

 

 

 

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