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todos perdem o encantamento quando se distraem contigo

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Cego de Muletas

 

      Não poderia ser pior, desagradavelmente irremediável, ditongo nas horas vagas - de“ai” lamentava a antecipação da fatalidade doentia e maldita.
     Silêncio, por favor, disse ele mesmo a si próprio, quando cego dos olhos e dorido estava do estômago, mixórdia de vómitos, acidez arrepiante. Naquele convéns de soalho podre, ele dizia recordar a fúnebre notícia. Sua mãe apenas consolou-o de nomes passados. Ainda cambaleando em direcção à porta, à única entrada do albergue, chamavam-no de casa tirana, não seria em vão, penso eu hoje, ele batia com a cabeça nas colunas de madeira estilhaçada. Por gosto ou não, talvez por rés de espadas brutos, ele persistiu naquele lugar até à morte. Febre delirante, alucinava-o a ver casas campestres no sol coado de Dezembro. Quantos círculos em volta da barriga nauseante? Com muletas cambaleou até ao fim do corredor, foi então que caiu e nunca mais se levantou, sangue encarnado, foi o que escorreu de lá até à cave. Recorda-se remorsos, pequenas reminiscências traumáticas. Era mulherio a chorar pelo seu homem. Brutalidade em pasmas consolações, lenços com saliva impregnada e soluços simulados, lembro-me que era tarde, desgostoso funeral aquele feito por sobrenome elitista. O homem sangrara por dentro, era um preconceitoso altruísta e não andava de muletas sem as utilizar como instrumento de agressão.
     Sem sentido existencialista nenhum. Morreu agarrado às contas pretas, simbólica acção já dos seus ascendentes parentes, falecer no acto interesseiro de quem reza pelo céu primoroso.  Ele dizia muitas vezes a mesma coisa e era diletante por conveniência. Detestava o Inverno, as tempestades viraram o seu barco.  
 
 
                                                                
 
                                                            Funchal, 6 de Março de 2007
                                                                           João Gouveia
 
 
 

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