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todos perdem o encantamento quando se distraem contigo

todos perdem o encantamento quando se distraem contigo

Anestesia Cerebral

     

    Porque necessito de aguardente a corroer o meu endógeno ser, agora, neste leve momento, a anestesiar o cérebro. Porque necessito de areia a embater o meu endógeno ser, agora, neste leve momento, a anestesiar o cérebro. Porque necessito de amor a derreter o meu endógeno ser, agora, neste leve momento, a anestesiar o cérebro. Porque necessito de sentir a força do teu ser, como que a expressão, subtil desde de então, fosse agora a tua única demonstração de anestesia cerebral.
   Esfrego o rosto. Os ouvidos interpelam sons imperceptíveis. Ao fundo, a dor. Que suspiro...
     Por favor, por favor, ajuda-me! Eu apelo por uma anestesia, por umas horas de paz, de esquecimento. Injecta-a. Faz circular em mim o desligar, o apagar dos sentidos. Fá-lo com prudência, mas sem moderação. Sê prático e induz-me tranquilidade. Ilude-me, vaticina-me um despertar melhor, diz-me que voltarei indolor, como que renascesse da vitalidade suprema.
      Porque necessito de anestesiar em pleno, o meu endógeno ser, agora, neste leve momento, procurando um anestesista. 
  
 
 
                                                                       João Gouveia
                                                         Funchal, 18 de Março de 2007
 
 

Incógnito Sensitivo

 

   Isolo particularidade momentaneamente reactiva de culpabilidade endógena, que reduz redentoramente a linguagem e todas as minhas faculdades afirmativas. Tenciono assim: esquecer. Mergulhando o incógnito sensitivo no esconderijo além do querer.
   Músicas tornar-se-ão meras sinfonias imperceptíveis aos ouvidos de quem as quer interpretar minuciosamente e nas cordas sonoras impenetráveis descobrir então, o motivo passado que uniu infinitos olhos a círculos emparelhados intermitentes. Num vício que tornar-se-ia cada vez mais insatisfeito, por isso escrevi impaciência e a isto acrescentei um padrão de infantilidade incompreensível. Por todos estes momentos vãos, curtos e facilmente substituídos, é incutido à minha patente subjectividade reiniciar. Contudo no talvez do medo. Na dúvida de ter errado. Na distância que não permite respostas precisas.
    Dias tornam-se ecos repetitivos, cada vez mais distantes. O vazio atrai pedras molhadas. A decisão subjuga-se cepticismo por paisagens passadas, as tais embebidas em vinho do Porto e deslumbradas no teu abraço amoroso.
 
 
                            
                                 Incógnito Sensitivo,
                                 Passado Eterno,
                                 Esquecimento Preciso
                                 
                                                                                       

Porque, como disse Maeterlinck, Maurice: “A palavra é tempo, o silêncio é eternidade".

                                                                                            João Gouveia, no esfíngico sentir

                                                                                                Funchal, 12 de Março de 2007

Seguidamente

 

Seguidamente Pergunto:
Cego estás dos olhos?
Seguidamente Respondes:
Servia água em vez de chuva.
 
Seguidamente Admiro-me,
Como queres ser fonte?
Seguidamente Olhas,
É o rio em vez de mar.
 
Seguidamente Desvio,
Porque choras?
Seguidamente Afastas,
Tremia máquinas em vez de céus.
 
Seguidamente Acordo,
Quantos sonhos?
Seguidamente Aperto
Lençóis em vez de ti.
 
 
                    João Gouveia, em mais um dia.
                      Funchal, 9 de Março de 2007
 

Eu

 
 
 
 
 
   Relâmpago temporal, lembrança transitória, recorda vultuosamente num ápice - odor apagado passado -,eu .
   Não apago cinzas vermelhas, eu não gosto de entreter-me, adoro aborrecer-me por conveniência, matando paulatinamente, escolho eu, porque aprecio o automático do bate-bate-coração, entres areias doces, climas amenos e pedras soltas, delino caminhos passageiros, é amar, eu amo. Apologista do eu por egos difusos intervenientes, sombras ambíguas, incertas nos momentos de agir por solenes resultados, por si só utopias inconvenientes, manifestam dúvidas a conscientes profissionais, padrões soltos alimentam fortes cabeças dilaceradas pela razão. Não sei quem é o eu que enterra memórias fugazes neste ciclo vicioso, na cama, lençóis emaranhados vincam peles, cravam companhias no corpo, eu posso, porque poderia poder estar no esquecimento insignificativo do presente que não prega nada. Meras paisagens, vejo-as eu, por distorções desfocadas do cumprimento de mão, surrealismo que ainda existe na alma flamejante, descontextualizada exprime-se frágil, eu no contínuo embaraço sensitivo dos dias, eu, então respiro ares vertiginosos na ânsia pelo labirinto que vós querereis que seja imperceptível pelo peso do entendimento que isso acarreta.
    Eu sei de eus escondidos em cada passo mentalmente diferido em mim mesmo. 
 
 
                                                                               Funchal, 8 de Março de 2007
                                                                                           João Gouveia

Cego de Muletas

 

      Não poderia ser pior, desagradavelmente irremediável, ditongo nas horas vagas - de“ai” lamentava a antecipação da fatalidade doentia e maldita.
     Silêncio, por favor, disse ele mesmo a si próprio, quando cego dos olhos e dorido estava do estômago, mixórdia de vómitos, acidez arrepiante. Naquele convéns de soalho podre, ele dizia recordar a fúnebre notícia. Sua mãe apenas consolou-o de nomes passados. Ainda cambaleando em direcção à porta, à única entrada do albergue, chamavam-no de casa tirana, não seria em vão, penso eu hoje, ele batia com a cabeça nas colunas de madeira estilhaçada. Por gosto ou não, talvez por rés de espadas brutos, ele persistiu naquele lugar até à morte. Febre delirante, alucinava-o a ver casas campestres no sol coado de Dezembro. Quantos círculos em volta da barriga nauseante? Com muletas cambaleou até ao fim do corredor, foi então que caiu e nunca mais se levantou, sangue encarnado, foi o que escorreu de lá até à cave. Recorda-se remorsos, pequenas reminiscências traumáticas. Era mulherio a chorar pelo seu homem. Brutalidade em pasmas consolações, lenços com saliva impregnada e soluços simulados, lembro-me que era tarde, desgostoso funeral aquele feito por sobrenome elitista. O homem sangrara por dentro, era um preconceitoso altruísta e não andava de muletas sem as utilizar como instrumento de agressão.
     Sem sentido existencialista nenhum. Morreu agarrado às contas pretas, simbólica acção já dos seus ascendentes parentes, falecer no acto interesseiro de quem reza pelo céu primoroso.  Ele dizia muitas vezes a mesma coisa e era diletante por conveniência. Detestava o Inverno, as tempestades viraram o seu barco.  
 
 
                                                                
 
                                                            Funchal, 6 de Março de 2007
                                                                           João Gouveia
 
 
 

Câmara Lenta

 

    Poderia acrescentar ao meu plano diário uma premissa mais desafogada, à monotonia dar descanso e a mim mesmo, deliberar a verdade individualista opressora, daqueles meus segundos de câmara lenta – tentados ao mal.
    Respiração a fundo, tolerância da difusão ideológica, íngreme peso que ainda persiste, à vontade faz-se ás de copas, numa percepção ténue, quase como que câmara lenta premeditada se tratasse, tudo ao compasso recto da música de dós. Ao fundo, fatalidade ecoa mágoa, pedras riscam rocha, deixam marca dilacerante, como rótulo proibido do necessário, particularmente aceite pela necessidade, numa cinematografia pensante, daqueles momentos de câmara lenta, gravados e esculpidos em finais drásticos, por não gritarem telas abstractas com coração. Linhas que já fartam, enchem-me de saciedade torturante, em palavras sempre iguais, contextualizadas na câmara lenta da tua vida, demasiado movimentada no ângulo quebrante de uma oscilação imperfeita, tremida pela incompreensão. O som. Esse desmaia, quando palavras tendem a manifestar vida demente. Repito réplicas sentimentais, mesmo assim insuficientemente inabaláveis, acordeis com os neurónios talvez acessos demais, numa prática quase que universal, nesse vai e vem de câmara lenta esquecida, a tal emotiva que desenrola a minha vida. Receitas calmantes, soporíferos que tencionam esquecimento, ditam-me falta de memória e em câmara lenta esqueço, paulatinamente, como que numa acumulação de selos eu coleccionasse o seu vício aceite.
    Despeço-me hoje das amarras cerebrais, fios que prendiam câmaras lentas sentimentais, que pouco ou nada simbolizavam para o realizador, fez do filme curta-metragem.
 

               João Gouveia                           

 Funchal, três de Março de 2007

 

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