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todos perdem o encantamento quando se distraem contigo

todos perdem o encantamento quando se distraem contigo

Rua Doutor Borges da Silva Quental

 

Últimos dias de um homem de um planeta qualquer.

            No dia onze de Agosto de mil novecentos e dois, nesse dia lembrado pelo desespero caído desses Homens que viram as suas casas ruirem, eu estava a usufruir de umas férias magníficas em Moçambique e nunca imaginei, nem por meros seguntos criativos, que um desses Homens viria a ser a perseguição mental amorosa platónica do meu ser. E como me entristece a ignorância dessa época pautada pelo absurdo cego dos meus olhos, como era incomprensível a indiferença egocêntrica do meu eu hoje flagelado, como dói, como foi o que já não é. Se ou menos pudesse voltar atrás...Meu Deus, que pensarão eles deste meu cárcere corpóreo deambulante e fraco? Que pensarei eu, Meu Deus, deste meu pecado viscoso que corrói as minhas veias gastas?A guerra levou-lhes, não só a alma e as casas, como também arrancou-lhes a bondade, deixando-os secos de medo. E porquê? Porquê esta obsessão deles por mim que me faz estar hoje a caminho de uma solitária eterna? Como fui um embecil...Para quê lamentar-me...para quê matrizar este corpo já sem resistência? Só queria encontrar-me com esse homem e beijar-lhe sem fim, amar-lhe como quem ama uma mãe desprezada pelo tempo, rir e nascer de novo.

           Quero contar-te uma coisa amor: no meu sonho vejo-te a escrever-me uma carta. Também vejo-te a caçar um elefante. Vejo-te com marfim nas mãos. Vejo-te a correr para mim. Vejo-te radiante. Mas já não quero sonhar contigo, isso faz-me mal... esta culpa ataca-me as vias respiratórias. A tua mulher contou-me um história sobre o teu fascínio pela linha do horizonte, como eras grande! Toda a tua biografia mal contada comoveu-me e amei-te. O teu povo odeia-me.E eu odeio que faças parte desse mesmo povo. Tu foste o despertar dos meus erros, como também do meu fim e o teu povo nada contribuiu para isso, nem para o bem, nem para o mal. Agora vivo em angustia por ti, porque também sofreste,mas prezo este sentir mórbido, pois faz-me entender o quanto dilaceraste por dentro e por fora, quando de bombas ataquei a tua casa e fiz morrer os teus filhos. Não tive culpa, naquela altura parecia não existir alternativa, era e sou louco. Não tenho nenhuma fotografia tua, continuo a perceber-te na minha mente com um rosto solene e másculo a sorrir, sempre a sorrir e a cantar de vez em quando, baixinho é claro, porque não quero que mais ninguém te ouça, quero que cantes só para mim, gesticulando esse só teu bater de asas com os braços, até parece que voas para o além dessa linha do horizonte de que tanto falavas.Hoje a tua mulher estará cá. Ela nunca mais teve prazer desde da tua partida, mas hoje terá um. Vou dar-lhe o prazer da minha execução e fá-lo por ti, meu amor. O meu Deus está comigo, não tenho medo de nada. Sinto fome e vontade de coçar-me nas paredes polidas desda cela purista. Amo-te tanto, meu céu mental que ainda aconchega de palavras amorosas o meu ser desprezível para mim e para os outros.


 

Caminho Inconcreto número vinte e dois A

 

      Sonolento anda para trás, com as costas voltadas à vida, sonolento anda, colhendo lacunas de saber imperfeito que rasgam de dor os seus olhos que vêem gradualmente o parecer da imagem singular, uma entre tantas mais. Uma, mas só uma, porque num momento somos todos obsessivos por qualquer coisa. O amarelo doentio cruzado com o verde visceral, ventre nauseabundo que esculpe traços magros de fome, dando à luz um ser que ainda desconhece a dor da regressão, do olhar e do vivido, dos cães vadios e dos poros dilatados à luz do nariz. Nascerão mais e sempre mais qualquer coisa para além de ti, na incongruência do tempo e nas gotas químicas que ainda caem de um céu aberto ao universo.

       Termina a vontade de escrever, como ponto amarelo doentio.


 

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