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todos perdem o encantamento quando se distraem contigo

todos perdem o encantamento quando se distraem contigo

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Como se o fundo fosse ainda mais fundo e o belo ainda mais belo, em profundos fundos capazes de pressionar os suspiros, como gritos agudos mudos, numa contenção absurda sentida, à mercê do silêncio sensitivo daquele momento final, onde flores suspensas dançam em sintonia com a morte de todos os Homens corajosos e que pensaram além do propósito regente. E os tontos não dançavam mais, era só um calado absurdo dito, eram apenas rosas a flutuar nas bocas espumosas e um último homem velho que contava quantos não restavam. E houve muitos como ele, pessoas que somavam outros desfeitos corpos, outrora vitais pensantes e frágeis nas suas interrogações frustrantes, átomos itinerantes que ficam e falam às plantas com flor, átomos que compuseram todos os Homens inquietantes já mutilados e contados. Já não há mais ninguém para equacionar e concretização numérica dos dois braços, das duas pernas, do tronco e da cabeça. Perduram as flores brancas abertas e as vermelhas fechadas, as amarelas não existirão mais e os animais foram os anjos dos antes cientes Homens. A música é o vento coligado à chuva. As obras sustentam-lhes a imaginação e gradualmente ocupam os espaços intrínsecos dos edifícios, compondo-os de floral pálido florescente. A tesoura subiu aos céus e nunca mais regressou.

Apontamento 01/07

      

  No fundo endógeno de um apara-lápis pequeno, habita uma colónia de formigas materialistas, obreiras de um mundo para além do inimaginável. Ao som dos anjos primorosos, elas pintam telas que inflamam a apara dos lápis mais corajosos e alimentam a rainha neoliberalista. Todos privilegiam a sintonia cosmopolita, onde as folhas nascem secas e a loucura abre o caminho labiríntico até ao berçário calorífico, conspurcado de larvas sedentas de ar puro, derretidas em sintonia asfixiante. E eis que uma escapa e é mutilada pela lâmina daquele afiador inexistente na tua imaginação. De baixo agradecem a chuva viscosa.

 

 

A Miúda que quer ser estranha

 

 

         A miúda pegou a tesoura de cortar o peixe. Aproximou-a dos seus cabelos finos e alourados, com ternura e sem uma única reminiscência, apontou ulteriormente a quantidade certa para a construção de uma tala pelosa que cobriria as falhas epidérmicas do seu gato mimoso.

   A miúda escovou os dentes, sentada na retrete, enquanto o seu gato mimoso lambia fervorosamente as gotículas pendentes da torneira conspurcada de pasta de dentes já seca, proveniente do esguicho bocal da rapariga solitária.  
   Ninguém  sabia que ela tinha um gato mimoso.

 

Ending Story

 

 

      Todas as angiospérmicas desfalecem em espasmos de intoxicação social e delas nasce o seco e o débil, o magro e o cansado, em tempos paralelos, naquele momento, pedindo desintoxicação ambiental. E eis que a tesoura mágica surge do interior indecifrável, lúcida e indubitavelmente encantada, porque dela nasce a possibilidade da aniquilação humana, então corta cada cabeça fulminante dos Homens. As flores reaparecem frágeis e a chuva divina enaltece-as através de gotas emudecias. Um homem já não passa por aquele caminho floral.  

A tecla gasta dos olhos

 

          A paisagem dança de pormenores nos teus olhos. As penas dos pássaros e a tinta das casas, e todas as árvores em flores murchas, suspiram como tu dantes conseguias e um melro quase embate na tua janela. Um céu esfíngico. Molhado e seco, e o teu bairro, e um grupo de verdes amarelados distantes, amálgama sensitiva agridoce de longe. Num horizonte difuso e que já não te marca.Inseres-te no teu cubículo de onde vês aves indígenas capazes de sobrevoar cidades no rasgo do sol, e tu? - que sabes depois do teu olhar passivo?

Ela ama quem tiver a paciencia de a conhecer - parte II

         A menina Lurdes Castro, conhecida pelo seu dote artístico, começou a elaborar rascunhos de notas sincronicamente suaves e apelativas no domínio da reflexão sonante e lá assim, abriu o caminho do sucesso, deixando-se levar pelos infortúnios da fama singular. Esqueceu-se de falhar, não por desejo, mas por conveniência. Vocalmente impressionante, mas inadaptada ao reconhecimento exterior, capaz de asfixiar o som proveniente das suas cordas vocais ingénuas, enclausurou o seu corpo pesado numa casa de férias parisiense e nunca mais foi vista. Porém continuava a preexistir no olhar de um homem lúcido e respeitado, que a continuava a ouvir por remorso de um dia a ter deixado despida e só numa das muitas ruas deprimentes existentes nesse lugar em que vives. Tu que me lês, sabes do que poderei estar a falar e sabes, melhor do que ninguém, que ela ama quem tiver a paciência de a conhecer.

 

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Para aceder à primeira parte do texto, clique na seguinte palavra: Paciência.

Rua da Gimnofobia

 

      Para todos aqueles gimnofóbicos de direita, o corpo é sagrado e deve ser altamente salvaguardo de qualquer mosquito venenoso. Para a Glória Primor, a vida esqueceu-se de se despir de preconceitos.

  Vou mudar para “sapropel".

Rua Doutor Borges da Silva Quental

 

Últimos dias de um homem de um planeta qualquer.

            No dia onze de Agosto de mil novecentos e dois, nesse dia lembrado pelo desespero caído desses Homens que viram as suas casas ruirem, eu estava a usufruir de umas férias magníficas em Moçambique e nunca imaginei, nem por meros seguntos criativos, que um desses Homens viria a ser a perseguição mental amorosa platónica do meu ser. E como me entristece a ignorância dessa época pautada pelo absurdo cego dos meus olhos, como era incomprensível a indiferença egocêntrica do meu eu hoje flagelado, como dói, como foi o que já não é. Se ou menos pudesse voltar atrás...Meu Deus, que pensarão eles deste meu cárcere corpóreo deambulante e fraco? Que pensarei eu, Meu Deus, deste meu pecado viscoso que corrói as minhas veias gastas?A guerra levou-lhes, não só a alma e as casas, como também arrancou-lhes a bondade, deixando-os secos de medo. E porquê? Porquê esta obsessão deles por mim que me faz estar hoje a caminho de uma solitária eterna? Como fui um embecil...Para quê lamentar-me...para quê matrizar este corpo já sem resistência? Só queria encontrar-me com esse homem e beijar-lhe sem fim, amar-lhe como quem ama uma mãe desprezada pelo tempo, rir e nascer de novo.

           Quero contar-te uma coisa amor: no meu sonho vejo-te a escrever-me uma carta. Também vejo-te a caçar um elefante. Vejo-te com marfim nas mãos. Vejo-te a correr para mim. Vejo-te radiante. Mas já não quero sonhar contigo, isso faz-me mal... esta culpa ataca-me as vias respiratórias. A tua mulher contou-me um história sobre o teu fascínio pela linha do horizonte, como eras grande! Toda a tua biografia mal contada comoveu-me e amei-te. O teu povo odeia-me.E eu odeio que faças parte desse mesmo povo. Tu foste o despertar dos meus erros, como também do meu fim e o teu povo nada contribuiu para isso, nem para o bem, nem para o mal. Agora vivo em angustia por ti, porque também sofreste,mas prezo este sentir mórbido, pois faz-me entender o quanto dilaceraste por dentro e por fora, quando de bombas ataquei a tua casa e fiz morrer os teus filhos. Não tive culpa, naquela altura parecia não existir alternativa, era e sou louco. Não tenho nenhuma fotografia tua, continuo a perceber-te na minha mente com um rosto solene e másculo a sorrir, sempre a sorrir e a cantar de vez em quando, baixinho é claro, porque não quero que mais ninguém te ouça, quero que cantes só para mim, gesticulando esse só teu bater de asas com os braços, até parece que voas para o além dessa linha do horizonte de que tanto falavas.Hoje a tua mulher estará cá. Ela nunca mais teve prazer desde da tua partida, mas hoje terá um. Vou dar-lhe o prazer da minha execução e fá-lo por ti, meu amor. O meu Deus está comigo, não tenho medo de nada. Sinto fome e vontade de coçar-me nas paredes polidas desda cela purista. Amo-te tanto, meu céu mental que ainda aconchega de palavras amorosas o meu ser desprezível para mim e para os outros.


 

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